Tenho pensado
na minha caminhada de estudante que se confunde com minha caminhada
profissional já que o professor é um eterno estudante.
Sempre fui fascinada
pelo mundo do conhecimento, porém com certa dificuldade nos bancos escolares.
Quando cursei
o ensino fundamental, este se chamava primeiro grau, tive duas repetências na
quarta e na quinta série. De acordo com minha professora de quarta série eu
comia muitas letras, trocava o “ss” por ‘Ç”, não sabia colocar o “m” e o “n” e
também não usava o “s” corretamente trocando pelo “z”.
Melhor seria
que eu permanecesse mais um ano na quarta série, já que passar para quinto ano
significaria trocar para uma escola maior, seriam muitas mudança, além do que a
escola que eu estudava tinha um nome a zelar e não poderia encaminhar para
outra escola uma aluna fraca.
Quando cheguei à quinta série, realmente era
muita mudança, amigos novos, mais
professores, uma escola enorme disciplinas separadas , um professor para
cada disciplina, muitas regras gramaticais e eu não entendia nenhuma. Rodei
novamente.
Estudei até a oitava séria no diurno, comecei trabalhar, passei para noite no primeiro ano
do segundo grau, então parei de estudar aos dezesseis anos. Casei aos
dezessete.
Aos 19 anos
comecei novamente a estudar, agora casada e sem trabalhar, iniciei o magistério
três anos, mais o estágio de seis meses. Engravidei e tive minha filha aos
vinte anos, mesmo assim continuei estudando, tinha o apoio de minha mãe, uma
bolsa integral de estudos em uma escola particular. Conclui o magistério em
1992, iniciei como docente da Prefeitura Municipal de Canoas em 1996.
Várias vezes
tentei cursar a faculdade, na verdade por três vezes e tive que parar, por motivos
financeiros, por engravidar novamente, por não ter como quem deixar os filhos.
Fiz todo este
relato por que ao refletir sobre a modalidade EJA, me sinto assim uma aluna da
EJA. Uma EJA diferente, eu estou na
UFRGS, parece que desta vez vou conseguir.
De qualquer
modo refletindo sobre minha trajetória e a modalidade de ensino, percebo que
estou em um curso diferenciado para um público específico, balizado pelo
comprometimento que os nossos professores tem na formação de profissionais qualificados, e na
responsabilidade que temos de carregar em nosso currículo o nome de uma instituição
como a UFRGS.
Assistindo aos vídeos sobre a modalidade EJA
na alfabetização de adultos, ouvindo os depoimentos, me enxerguei. É muito
importante para mim, mesmo faltando apenas cinco anos para aposentadoria, tirar
da minha identificação profissional na intranet a classificação “não graduada”.
Tive ótimas oportunidades na administração pública trabalhei, com projetos de
arrecadação financeira, viajei conhecendo a realidade da arrecadação fiscal de
outros municípios, fui por onze anos assessora técnica de uma das maiores
secretarias do município. Não quis ficar! Pedi para sair, precisava continuar
minha “alfabetização docente”.
A realização
pessoal que o PEAD me proporciona cada vez que me imagino concluindo a
graduação, penso que se assemelha ao adulto, que carrega suas angustias e
amarguras com o processo escolar excludente a caba por se alfabetizar em uma
turma de EJA. Gratidão aos professores, satisfação pessoal, reconhecimento profissional,
coragem e muita alegria.