terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O que significa mesmo perguntar?


          Quando iniciei a leitura do livro, Por uma pedagogia da pergunta? de Paulo Freire e Antônio Faundez, ingenuamente, esperava uma análise psicológica de como a postura do professor, interfere na maneira que o aluno aprende, ou a flexibilidade em aceitar os questionamentos dos alunos conduzem uma aula mais interessante.
         Surpresa, me deparei com uma leitura crítica cheia de posicionamentos políticos, considerando o conhecimento intelectual científico frente ao conhecimento empírico e a costumes culturais.
       Considerando e valorizando saberes, buscando construir autossuficiência em grupos colonizados, presos por crenças impostas.
         Trechos da leitura como:

“Sabemos que a linguagem é de natureza gestual, corporal, é uma linguagem de movimento de olhos, de movimento do coração. A primeira linguagem é a. linguagem do corpo e, na medida em que essa linguagem é uma linguagem de perguntas e na medida em que limitamos essas perguntas e não ouvimos ou valorizamos senão o que é oral ou escrito, estamos eliminando grande parte da linguagem humana. Creio ser fundamental que o professor valorize em toda sua dimensão o que constitui a linguagem, ou as linguagens, que são linguagens de perguntas antes de serem linguagens de respostas.”

“...de que hoje o ensino, o saber, é resposta e não pergunta.”

“A natureza desafiadora da pergunta tende a ser considerada, na atmosfera autoritária, como provocação a autoridade.”

“A questão que se coloca está na compreensão pedagógico-democrática no ato de propor.”

         Me levam a insatisfação da docência ingenua.
        Devemos ir além de aulas motivadoras. Mais do que uma postura flexível de aceitar perguntas ou usar perguntas como recurso. Refletir sobre as perguntas.Buscar entender o contesto que o aluno se encontra.Considerar a curiosidade que existe em cada ato de perguntar. Entender a verdade que está sendo demonstrada na pergunta.
      Alfabetização , letramento e representação de mundo tem a ver com professores e alunos buscando juntos alternativas para a construção da cidadania.
         Um dos alunos do Projeto Mais Educação, muito inquieto e com poucos amigos na escola me perguntou:
          - “Profe” quando a senhora era pequena do que tinha medo? Devolvi perguntei do que ele tinha medo?
             Me respondeu que tinha medo de ficar sozinho. Não queria ficar sozinho em casa. Não queria sair do Mais Educação.
              Fiquei curiosa e comecei a investigar.
           O medo que tinha era de “espíritos”,  ele tinha assistido a alguns ritos religiosos, com mortes de animais e entidades, junto com sa mãe.
         Conversei com a mãe, explicando que seria muito cedo para a participação de uma criança, nestes rituais. Ela me disse, que era importante que ele participasse,  era muito sensitivo e ainda não sabia lidar com sua potencialidade.
           Esta atitude da mãe estava prejudicando o menino que já não conseguia nem ficar no silêncio de tanto medo.
             Perguntas vão além de curiosidade, também demostram uma realidade, pedem ajuda.
       Perguntas ensejam respostas, que nem sempre nós professores estamos preparados para responder. Perguntas presumem um ato de coragem e humildade. Coragem em responder, humildade em construir alternativas possíveis como respostas.


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